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Pesquisa indica que desmame precoce pode causar predisposição para complicações gástricas

Seg, 06 de Julho de 2020 15:24

Estudo do Instituto de Ciências Biomédicas da USP feito em animais revela que parar de mamar mais cedo que o indicado pode acarretar mudanças permanentes no estômago, as quais aumentariam as chances de lesões no órgão.

 

Cientistas do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) descobriram que o desmame precoce pode causar uma predisposição a doenças gástricas, de acordo com testes realizados em animais. A pesquisa foi coordenada pela professora Patrícia Gama, do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento, que trabalha com efeitos do desmame precoce no estômago e intestino há 31 anos.

 

Foram comparados dois grupos de ratos, um que mamou normalmente e outro que teve o leite materno substituído por outro tipo de alimento aos 15 dias de vida - o que equivale a menos de 4 meses em humanos. Os pesquisadores analisaram as células dos estômagos dos animais - as que produzem muco para proteger a superfície do estômago, as que produzem ácido e as responsáveis pela produção de pepsina, uma enzima importante para a digestão de proteínas.

 


Normalmente, o desmame ocorre entre 18 e 22 dias de vida do animal, e nesse momento os genes que regulam a diferenciação das células do estômago têm a expressão aumentada. "É o corpo preparando todos os seus genes para um organismo que passará a ter uma alimentação normal", explica Gama. No entanto, no caso do grupo de desmame precoce, a expressão de um dos genes - ATP4B, que induz a produção do ácido no estômago - continuou alta mesmo nos adultos. "Observamos também o produto desse gene: nos 18 dias a proteína também aumentou, mas nos 60 dias isso não acontece mais. Ou seja, já existe algum mecanismo entre o gene e a proteína que faz com que a proteína se module".

 

A expressão aumentada deste gene na vida adulta pode fazer com que o animal produza mais ácido que o normal em situações de estresse ou durante um quadro infeccioso no estômago. Isso poderia levar a ulcerações, o que já foi documentado em estudos antigos usados como referência no artigo. "Nós trabalhamos com esse modelo há muito tempo e nunca encontramos ulcerações. No entanto, em termos de ambiente, se esse animal for exposto a estresse ou a uma infecção como pela bactéria H. pylori, principal causadora das úlceras, é possível que ele desenvolva uma resposta exacerbada", diz a pesquisadora.

 

Outra mudança foi encontrada no gene relacionado à produção de muco. Nos animais adultos que começaram a se alimentar mais cedo, a produção deste gene ficou menor do que o normal, o que pode significar uma menor proteção da parede do estômago. Também houve uma alteração no número de células produtoras de pepsina, as quais ficam em número maior desde a fase de filhote até a vida adulta. "O grande problema dessas células é que, em uma situação de lesão, elas podem dar origem a uma metaplasia, ou seja, um tumor. A nossa hipótese é que os animais que passaram pelo desmame precoce sejam mais suscetíveis a esse quadro".

 

Para aprofundar essas descobertas, o próximo passo será analisar como os modelos animais desmamados precocemente respondem a um estímulo, a uma lesão na mucosa gástrica. "Também pretendemos correlacionar os dados epidemiológicos e buscar um marcador para detectar nas crianças e nos adultos que tipo de mudança eles podem ter no trato gastrointestinal por conta do desmame precoce".

 

A pesquisadora Patrícia Gama chama atenção para a questão da amamentação e lembra que seis meses é o tempo mínimo recomendado de alimentação com leite materno ou fórmula, podendo se estender até os dois anos de idade. "A discussão é muito voltada para a função imunológica, mas na verdade o leite é a fonte de todas as moléculas que o bebê precisa para crescer bem e desempenhar várias outras funções do organismo".

 


Fonte: Portal Acadêmica Agência de Comunicação

 
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