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Diferença de gênero na escola e nas carreiras científicas

Sex, 24 de Janeiro de 2020 09:47

Artigo de Débora Foguel, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e conselheira da SBPC, para o blog Ciência & Matemática do jornal O Globo

 

Lendo uma matéria do Antonio Gois do Globo, lembrei-me de um artigo recentemente publicado na revista Science Education (Novembro, 2019, págs. 1-20), já que ambos trazem à superfície uma questão muito relevante: a disparidade de gênero em alguns aspectos da vida escolar e suas consequências para a história de cada um e para a escolha profissional.

 

O estudo brasileiro a que o Gois faz referência relata que, embora haja uma pequena diferença na nota dos meninos em matemática em relação a nota das meninas e uma maior diferença na nota das meninas em português em relação aos meninos no exame do Saresp (avaliação realizada pelo governo de São Paulo), quando se analisa as notas dadas pelos professores em sala de aula, as meninas recebem nas duas disciplinas notas maiores que os meninos. Isso, de certa, forma conflita com o resultado do Saresp, uma prova que sofre menos influência de outros fatores como o fator interpessoal, comportamental dentre outros . Talvez nada disso tivesse maior consequência, se, conforme apontado na matéria, as notas que um estudante tira impacta diretamente nas suas expectativas futuras e na sua autoestima, o que pode ser determinante na decisão de um estudante de abondar ou continuar os estudos.

 

No estudo da Science, Whitherspoon e Schunn procuraram investigar em que momento da vida escolar/universitária um(a) estudante americano(a) opta por seguir ou abandonar uma carreira científica e se há diferença de gênero nessa opção ao longo desse caminho. Antes de eu prosseguir, é importante lembrar que o sistema universitário americano, onde o estudo foi conduzido, é bem diferente do nosso e os estudantes, ao entrarem no college (similar a universidade), ainda não definiram que carreira específica seguir.

 

Também nos EUA, há exames nacionais que avaliam os estudantes antes de ingressarem na universidade (SAT- Scholastic Aptitude Test) e, curiosamente, lá também os meninos têm notas um pouco maiores em matemática e as meninas têm notas maiores em escrita/redação. Um dos pontos tratados no estudo da Science é se os estudantes utilizam essas notas como parâmetros ou indicadores, mesmo que inconscientes, para a escolha de suas carreiras mais tarde, no college. (Aqui não vamos aprofundar nessa questão da diferenças de notas entre meninos e meninas nas diferentes disciplinas, até porque já se sabe que essas diferenças não podem ser explicadas por questões biológicas ou habilidades cognitivas, mas, muito provavelmente, por questões socioculturais e históricas que, infelizmente, não tenho conhecimento para discorrer sobre as mesmas).

 

Mas, uma coisa curiosa é que as meninas que tiram as melhores notas em matemática também são as que têm maior probabilidade de tirarem melhores notas em redação que os meninos. Segundo os autores, trata-se da “Hipótese da Força Relativa”, que poderia explicar alguns dados levantados no estudo, conforme descreverei brevemente a seguir.

 

Os autores acompanharam 4345 estudantes que estavam fazendo sua graduação no college de Ciências e Artes e no college de Estudos Gerais, ambos associados a uma universidade americana. O estudo descreve a amostra em detalhes, mas por falta de espaço ressalto apenas que os estudantes são oriundos de famílias com renda mais elevada e, na sua maioria, são brancos. A ideia do estudo foi a registar a intenção de carreira desses estudantes quando do ingresso no college e, depois, analisar o tipo de diploma obtido por eles. Dessa forma, a ideia era saber se os estudantes mudam suas trajetórias ao longo do percurso e se essa mudança tem correlação com o gênero.

 

As intenções de carreira foram subdivididas em cinco áreas, a saber: Ciências (Biologia, Química, Neurociência, Física, Geologia etc.), Medicina (Pré-Medicina – nos EUA, a medicina é um curso universitário), Saúde (Farmácia, pré-Odontologia, Nutrição etc.), Áreas não Científicas (Psicologia, Pré-educação, Antropologia, História, Filosofia, Literatura, Música etc.) e Indecisos.

 

No primeiro conjunto de resultados, os autores analisaram qual o percentual de estudantes que se diplomaram em Ciências, independente da sua intenção de escolha de carreira no ato da matrícula. Vejamos os resultados que foram curiosos: Dos 100% que se diplomaram em Ciências, 41% tinham a intenção de seguir a carreira científica no ato da matrícula; 45% queriam Medicina/Saúde; 11% eram os indecisos e 3% queriam áreas não científicas. Ou seja, do total de graduados em Ciências, grande parte tinha como opção Medicina/Saúde e não a própria Ciências, o que sugere que os estudantes dessas duas áreas também têm interesse em seguir carreiras científicas, pelo menos nos EUA. E, interessantemente, em números absolutos, a maior parte dos diplomas em Ciências foi concedido a mulheres e, quase o mesmo percentual de homens e mulheres que entraram querendo seguir a carreira científica, se diplomam em Ciências (43% homens e 46% mulheres), o que indica que, pelo menos nesta universidade, não se perdem preferencialmente mulheres ou homens pelo caminho dos que almejam a carreira científica. Os autores se referem a isso como um “percurso sem vazamento” para as carreiras científicas (non leaky pipeline).

 

Outro resultado curioso foi observado nos graduados nas Áreas não Científicas. Esses graduados, na sua grande maioria, é composto por 38% de mulheres que queriam Medicina ao entrar no college, ao passo que apenas 24% dos homens que queriam Medicina terminam por se graduar em Áreas não Científicas. Esse foi um dos resultados onde os autores encontraram as maiores diferenças de gênero. Ou seja, mais mulheres que queriam ser médicas acabam por se formar em psicologia, antropologia, história, filosofia etc.!

 

Para explicar essa diferença (gender gap), eles buscam respostas na “Hipótese da Força Relativa”, mencionada anteriormente. Por que mais mulheres que homens abandonam seus planos de serem médicas e acabam se diplomando em outras áreas não cientificas (mas, igualmente relevantes, gostaria de enfatizar!)?

 

Para tentar jogar luz nessa questão, os autores analisaram as notas dessas estudantes no SAT e nos exames das disciplinas do college (notas nas disciplinas em cursos de ciências versus notas em disciplinas de humanidades/ciências sociais para ver se havia diferença na performance). Curiosamente, as mulheres que migraram para as carreiras não científicas e que tinham a intenção no início do college de seguir medicina tiraram notas maiores nas disciplinas de artes/humanidades que nos cursos de ciências e apenas esse indicador mostrou correlação com essa nova escolha profissional. As notas do SAT dessas mulheres não mostraram qualquer correlação com a migração medicina carreira não científica. Isso indica que a boa performance das mulheres nesses cursos das humanidades pode estar influenciando na sua escolha de carreira. Ou seja, perceberam que são “fortes” nessas disciplinas abre novos leques de opção para as mulheres.

 

Enfim, o estudo é muito denso e repleto de análises interessantes sobre essa questão de gênero. Recomendo leitura. No entanto, não podemos extrapola-lo diretamente esses resultados para nossa realidade brasileira, até porque nosso sistema universitário é bem diferente e as escolhas profissionais se dão antes da entrada na universidade, havendo muito pouca mobilidade depois dessa escolha. Talvez seja necessário pensarmos sobre esse nosso engessamento. Até porque, conforme esse estudo revelou, muitos estudantes que entram na universidade almejando seguir carreira médica ou da saúde, terminam por se diplomar em Ciências conforme relatei.

 

Certamente, o Brasil precisa de bons médicos e profissionais de saúde. Mas, como cientista, vou puxar aqui a brasa para minha sardinha e terminar dizendo que seria ótimo podermos cooptar vários estudantes para engrossar as fileiras da ciência brasileira que anda tão desprestigiada e carente de recursos, mas que ainda tem muito que crescer e não pode esmorecer!

 

Fonte: Jornal da Ciência, 21/01/2020, com informações da Ciência & Matemática – O Globo

 
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