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Cientistas brasileiros descobrem nova espécie de réptil

Qui, 23 de Janeiro de 2020 15:38

Descoberta feita no interior da Bahia, em trabalho de monitoramento ambiental da construção de usinas eólicas, ressalta a importância dos estudos de impacto em empreendimentos que interfiram no ambiente natural

 

Uma parceria entre cientistas de três universidades federais brasileiras, entre elas a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), resultou na descoberta de um tipo de réptil curioso, uma nova espécie de anfisbena, ou, como é conhecida popularmente, cobra-de-duas-cabeças. A espécie foi descoberta no estado da Bahia, no bioma da Caatinga. Apesar do nome popular, esse animal não é uma serpente nem possui duas cabeças. Os herpetólogos – especialistas que estudam anfíbios e répteis – chamam as cobras-de-duas-cabeças de anfisbenas, nome de origem grega que quer dizer “que anda para os dois lados” e faz referência a uma criatura da mitologia grega, segundo o Dr. Leonardo Ribeiro, professor na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e coordenador do estudo. As anfisbenas não são peçonhentas ou venenosas, e não oferecem nenhum tipo de perigo.

 

O animal foi descoberto enquanto o Dr. Ribeiro estudava espécimes depositados na coleção herpetológica da UNIVASF, oriundos de um estudo de monitoramento ambiental para a construção de usinas eólicas no interior da Bahia, na região dos municípios de Umburanas e Sento Sé. Ele percebeu que esses animais não se encaixavam em nenhuma descrição de espécie conhecida até então, e por isso se tratava de uma espécie nova para a ciência. Leonardo então contatou dois colegas, também professores e cientistas em outras universidades públicas, Samuel Gomides (Ufopa/Campus Oriximiná) e Henrique Costa (atualmente na Universidade Federal de Juiz de Fora, na época pesquisador pós-doutorando na Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais).

 

O nome científico da nova espécie é uma palavra originária da língua indígena tupi e se refere aos diversos adornos usados na cabeça durante o cotidiano dos indígenas brasileiros. O nome surgiu devido à espécie possuir um conjunto de escamas no topo da cabeça, o que lhe dá a aparência de usar um capacete. Por isso, os pesquisadores sugerem nomeá-la popularmente como anfisbena-de-capacete. Dessa forma, o nome, além de ser uma homenagem à população indígena brasileira, também é uma forma de chamar a atenção para a situação desses povos que continuam sofrendo com a destruição dos ambientes naturais e os conflitos com invasores nas reservas em que habitam.

 

Esta descoberta ressalta a importância dos estudos de impacto e de monitoramento ambiental em empreendimentos que interfiram no ambiente natural. Em um momento em que se discute um relaxamento das leis ambientais no País (caso da PL 3729/04), este achado indica a necessidade de mais investimentos para inventariar nossa biodiversidade e a necessidade de entender como os empreendimentos podem afetar as espécies.

 

A espécie recém-descoberta só é conhecida nos municípios de Umburanas e Sento Sé, em áreas que foram impactadas pelas obras da construção de usinas eólicas. Serão necessários estudos futuros para avaliar se a espécie é abundante ou rara na região. Em abril de 2018, a área onde a nova espécie foi descoberta se tornou oficialmente parte da Área de Proteção Ambiental Boqueirão da Onça – um tipo de unidade de conservação que permite ocupação humana e outras atividades, como agropecuária, e até a construção de usinas. Mais importante ainda é o fato de o local ficar a poucos quilômetros do também recém-criado Parque Nacional do Boqueirão da Onça, uma área de proteção integral, ou seja, que deve ficar totalmente preservada. Apenas com novos trabalhos na região será possível afirmar se o réptil também habita o parque.

 

Outras descobertas

 

Em maio de 2018, o trio de cientistas já havia publicado a descoberta de uma outra espécie de anfisbena na mesma região, chamada Amphisbaena kiriri, em homenagem à etnia Kiriri, também conhecida como Kariri ou Cariri, que antigamente vivia em grandes comunidades nas caatingas do interior do estado baiano, e atualmente estão restritos a poucos indivíduos. A nova descoberta ressalta a importância da região como um grande santuário da biodiversidade da Caatinga.

 

A Caatinga foi durante muitos anos considerada um bioma com pouca biodiversidade frente aos outros biomas brasileiros, o que pesquisas recentes têm contestado. A verdade é que a Caatinga apresenta uma alta riqueza de espécies, muitas delas endêmicas, ou seja, que só são encontradas lá, o que é o caso da anfisbena-de-capacete. Aproximadamente 63% da Caatinga já foram devastados pelas ações humanas, e somente 7,5% estão sob alguma forma de proteção ambiental, sendo que apenas 1,13% estão nas chamadas unidades de conservação de proteção mais restrita (como parques estaduais e nacionais).

 

“Com a nova descoberta, chega a 27 o número de espécies de anfisbenas na Caatinga. No Brasil, são conhecidas mais de 800 espécies de répteis, sendo que, destas, cerca de 80 são anfisbenas. O país ocupa a 3º colocação mundial no número de espécies de répteis, atrás somente da Austrália (cerca de 1.100 espécies) e do México (cerca de 950 espécies). Mas ainda há muito o que descobrir no Brasil como um todo. São encontradas por aqui várias espécies novas de répteis por ano. Entretanto, os recentes cortes de verbas na área da educação e da ciência trazem grandes preocupações. Sem esse dinheiro não há como pesquisar e fazer ciência. Outro ponto preocupante é o relaxamento de leis ambientais”, alerta o pesquisador Samuel Gomides (Ufopa).

 

A anfisbena-de-capacete só foi descoberta porque havia biólogos e técnicos em meio ambiente acompanhando os processos de construção das usinas eólicas, e que coletaram alguns indivíduos para servirem de um “testemunho” da biodiversidade que existia em uma área cuja vegetação foi suprimida para construção da usina. Se as leis forem afrouxadas – desobrigando o licenciamento ambiental e os estudos de impacto e monitoramento ambientais, por exemplo – casos como este podem ocorrer mais e perderemos espécies antes de conhecê-las.

 

O artigo científico descrevendo a descoberta da nova espécie foi publicado em janeiro no periódico internacional Journal of Herpetology, editado pela Sociedade para o Estudo de Anfíbios e Répteis (Society for the Study of Amphibians and Reptiles – SSAR), considerada a maior sociedade herpetológica internacional, com sede nos Estados Unidos.

 

Fonte: Jornal da Ciência, 21/01/2020, com informações da Andifes

 
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