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Academia e universidades, sozinhas na defesa do sistema de C&T?

Ter, 03 de Setembro de 2019 08:58

Artigo de Hernan Chaimovich, professor Emérito do Instituto de Química da Universidade de São Paulo e ex-presidente do CNPq, para o Jornal da Ciência

 

O conhecimento produzido pelos pesquisadores nas universidades e institutos de pesquisa é o bem público por excelência, e o seu uso por qualquer indivíduo ou empresa não diminui sua disponibilidade para os outros. O conhecimento embutido em serviços ou produtos, apesar de ser baseado nas descobertas públicas, é distinto e não é nem universalmente disponível nem gratuito. Este conhecimento específico da empresa ou de outra parte do sistema produtivo, é a chave para o desenvolvimento econômico.

 

A incorporação do conhecimento fundamental em produtos ou serviços é somente possível em países com robustos sistemas de ciência e tecnologia, que também formam pessoal altamente qualificado. Parece oportuno lembrar do papel do conhecimento fundamental aqui gerado, e da qualidade do pessoal formado em universidades do País, em alguns dos setores onde o Brasil ainda é globalmente competitivo. A produção de biocombustíveis, o mercado mundial de alimentos vegetais e animais, o peso do País no mercado global de celulose, a produção de petróleo e gás em águas profundas, para mencionar somente alguns exemplos. Em todos esses casos o poder público, o sistema nacional de ciência e tecnologia e o setor privado agiram em sintonia para oferecer ao mundo produtos de qualidade e preço competitivos em volumes compatíveis com a demanda. Em nenhum dos casos mencionados havia o conhecimento grátis, tampouco a tecnologia acessível. Tanto o conhecimento, quanto os profissionais capazes de incorporá-lo, foram desenvolvidos no Brasil.

 

Em períodos de crise, os países que decidem acelerar a saída da conjuntura adversa costumam proteger o sistema de C&T mantendo seletivamente o investimento público nesse setor. É ilustrativo considerar que países desenvolvidos, que sofreram agudamente os efeitos da recessão de 2008, assim o fizeram. Como resultado, já em 2011 a produção de patentes do conjunto de países desenvolvidos era 15% superior a 2007. As tecnologias disruptivas, surgidas recentemente, refletem a manutenção da produção de conhecimento fundamental, financiado por recursos públicos, bem como sua transformação em conhecimento do setor produtivo. Mencionar algumas delas pode ser ilustrativo: Netflix, Waze, impressoras 3D, carros autônomos, drones, criptomoedas, supressão ou inserção de genes, inteligência artificial, carne desenvolvida em laboratório. Por entender a capacidade de inovações disruptivas de modificar economias, sociedades e mercados, nesses países os empreendedores mais ousados apoiam a manutenção dos sistemas nacionais de C&T e o investimento público em produção de conhecimento, mesmo em tempos de crise.

 

A compreensão das relações entre descobertas e conhecimento produtivo parece escapar da compreensão do atual governo brasileiro. Não só o sistema de C&T nacional está sendo devastado, mas universidades e institutos parecem haver caído na sanha ideológica destrutiva dos que, além de ver fantasmas, recusam fatos. Diante de tantas ações concretas, as comunidades de pesquisadores, professores e alunos, cobertos de razão, se insurgem e organizam manifestações. Associações, sociedades e academia produzem abaixo assinados, lidos com atenção aparentemente apenas pelos próprios assinantes.

 

É de bom alvitre se perguntar se essas legítimas manifestações de protesto podem, isoladamente, modificar atos e atitudes de quem atualmente governa. Os que hoje tentam destruir o sistema de C&T (colocar o que no lugar?) podem considerar que tais manifestações, com o argumento de proteger a soberania nacional, defendem interesses corporativos. Como então derrubar essa falaciosa posição?

 

Ingenuamente creio que pelo menos uma parte da sociedade tem o dever de apoiar o movimento de defesa de um sistema de C&T condizente com o tamanho e a qualidade da população e a geografia do país. Refiro-me especialmente a quem vem se beneficiando da produção de conhecimento fundamental e pessoal altamente qualificado formado, em especial, pelas universidades públicas. Todos os setores produtivos brasileiros que vêm incorporando conhecimento em serviços e produtos compreendem, ou deveriam compreender, a importância de um sistema sólido de C&T e de formação de pessoal. Será que vão continuar calados? Onde estão Petrobras, os representantes do setor agropecuário, os integrantes da Mobilização Empresarial pela Inovação e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, os produtores de papel e celulose, e de tantos outros setores que só existem hoje graças à incorporação e criação de conhecimento produtivo? A hora de agir é agora, pois a destruição do sistema de C&T e da formação de pessoal altamente qualificado pode prenunciar o fim da possibilidade de inserir o Brasil na competitiva era do conhecimento. Na era do conhecimento o setor que não se renova morre – vide o efeito da Netflix nas locadoras de vídeos e DVDs.

 

Sobre o autor:

 

Hernan Chaimovich é professor Emérito do Instituto de Química da Universidade de São Paulo e foi presidente do CNPq.

 

*O artigo expressa exclusivamente a opinião de seu autor.

 

Fonte: Jornal da Ciência, 29/08/2019

 
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